Filosofia Online


Quarta-feira , 14 de Março de 2007


Aula do dia 13/03

Discussão em grupo

Eutanásia, gravidez na adolescência, oportunidade de um emprego desonesto num momento em que passamos por necessidade, descobrir que o(a) namorado(a) gosta de outra pessoa além de você, presenciar uma criança pobre roubando comida... Todos nós podemos em algum momento nos deparar com situações como essas. A diferença está no fato de como cada um de nós vai agir diante dessa situação; como nossa consciência moral irá guiar as nossas atitudes.

Vamos tratar aqui, especificamente, do caso da mulher que vê uma criança roubando frutas e pães em uma mercearia, tema número 5, que foi escolhido pelo grupo. 

Alguns casos como esse de pessoas roubando comida já foi notícia na televisão. Um dos casos mais famosos foi o roubo de um pote de manteiga em um mercado no bairro Jardim Maia, em São Paulo, no dia 16 de novembro de 2005.

 

A autora da tentativa de furto foi Angélica Aparecida Souza, de 19 anos, que alegou que não podia mais ver seu filho de dois anos passando fome. Ela estava com o pote de manteiga escondido no boné quando foi surpreendida pelo dono do mercado. Depois de passar 128 dias na cadeia de Pinheiros, foi condenada a cumprir pena em regime semi-aberto.

A questão é: merecia ela ter ficado quatro meses presa pelo roubo de um pote de manteiga? Uma pessoa que rouba alimentos merece a mesma punição de quem rouba um CD, por exemplo? O furto está previsto no código penal e, obviamente, as leis foram feitas para serem cumpridas. É necessária a punição não só para "dar uma lição" no autor da prática ilegal, mas também para servir de exemplo aos demais. Afinal, se não existisse a punição (que infelizmente é pouco aplicada no país e aplicada na maioria das vezes somente aos menos favorecidos) enfrentaríamos uma situação de roubalheira e um mata-mata ainda mais grave do que enfrentamos hoje em dia (se é que isso é possível). A punição é necessária, mas é necessário também fazer uso do bom senso, da lógica. Tudo bem que o furto é ilegal, mas se uma pessoa rouba algum tipo de alimento obviamente faz isso por necessidade, por fome, desespero, e não por malandragem, como quem rouba dinheiro ou outras coisas. Parece injusto porque ao mesmo tempo que isso acontece, quantos políticos, por exemplo, são investigados, sendo comprovado desvio de verba pública e nada acontece a eles? Parece que os “peixes grandes” ficam sempre impunes.

Voltando ao tema discutido pelo grupo na sala de aula, analisamos todas as possibilidades, todas as atitudes que poderiam ser tomadas pela mulher e as conseqüências de cada uma delas. Optamos pelo seguinte desfecho: no momento em que a mulher percebesse o furto ela deveria tentar conversar com a criança, explicar que aquela ação poderia causar graves conseqüências a ela, como ser denunciada. Ao mesmo tempo, a mulher, percebendo o estado de pobreza da criança, deveria também pagar as frutas e os pães que seriam furtados, e contar ao dono o ocorrido, para que ele ficasse atento a partir daquele momento. Dessa forma a criança poderia comer aqueles alimentos, a mulher não trairia a amizade que tinha com o dono do mercado e o dono, por sua vez, que passava por dificuldades financeiras, não ficaria com o prejuízo.

Preferimos deixar a decisão nas mãos da mulher porque concluímos que simplesmente “delatando” a criança ao dono do estabelecimento ele poderia tanto se apiedar e deixá-la levar os alimentos, como poderia chamar a polícia, agravando demais a situação.

Existe a possibilidade de a pessoa que presenciou a cena querer ajudar, pagar os alimentos à criança mas não ter dinheiro suficiente, afinal, hoje em dia muitos passam por necessidades, mas nesse caso, trabalhamos com a hipótese de que a mulher poderia ajudar.

É claro, nem sempre uma pessoa que presencia uma situação desse tipo terá vontade de ajudar, porque podemos pensar que por trás de uma criança pobre furtando comida pode existir, muitas vezes, um adulto comandando tudo. Isso nos causa revolta, mas ainda assim é furto de alimentos, que são necessários a todos, suprem necessidades primárias.

Mas não vamos fingir que o mundo é perfeito, que o sol brilha para todos e que o “viveram felizes para sempre” sempre acontece. Esse desfecho que aplicamos a esse tema resolveu essa situação somente naquele momento; o problema social e econômico é muito mais complicado e se agrava dia após dia. Afinal, se no dia seguinte a criança tentasse fazer o mesmo em outro lugar, ou que seja na mesma mercearia, dificilmente ela encontraria uma pessoa disposta a ajudá-la da mesma forma. Além do que, temos consciência de que uma “lição de moral” passada à criança pela mulher num intervalo curto de tempo não apagaria toda a malandragem que as crianças aprendem na escola da rua durante anos. Apesar de tudo, como a idéia era desenvolver a atitude da mulher, procurando evitar as piores conseqüências, agindo de acordo com seus princípios, concordamos que esse seria mesmo o melhor final para a história.

 

Escrito por dstrolezi às 10h09 PM
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